terça-feira, 11 de junho de 2019

belle de jour


Senti o perfume no ar:
Da mudança de estação, de uma veracidade
De um cio animal. De uma necessidade de respirar!
Do túnel de árvores, do campo “mais grande” da cidade
Você surgiu
Nem sei se te vi primeiro ou se primeiro me viu...
Era estranho. Estrangeiro. Coração ligeiro. Descompassado, ofegante (dava pra sentir)
Hálito quente. História dormente. A fome a rugir...
Olho nos olhos. Não, não queria saber o que você faz.
Via perigosa, curvas sinuosas de um corpo a mais
Queria te desacortinar. Te invadir. Te desnudar.
Te sentir. Te aventurar.
Estranha procissão de mim mesmo
E se é verdade que Narciso acha feio o que não é espelho
Não te menti: te dei à mim,
resgatei o lampejo
Das histórias que revejo
Passarem bem longe daqui
(como numa tela - La Tentation de St Antoine - de Dali)
Este é o meu segredo. Este é o teu segredo.
Revele-se, volte do teu degredo
Inteiro, enfim.

(Deo)

*Vídeo: Imagine Dragons - Next To Me (Lyrics)

sábado, 3 de novembro de 2018

Auribus teneo lupum


eu tinha um aguaceiro dentro de mim
contido, quieto, fininho
e vem você me cutucar
com a vara curta do sentimento, da emoção tardia
com sonhos tolos e vãos de liberdade, democracia e reconhecimento
não vê você...
que o meu grito contido demorou décadas para ser sepultado?
não vê você...
que é perigoso despertar essas lembranças do presente?
não vê você...
que vomitar esse lodo negro e enlameado
pode trazer flores à estação?
Não vê você???

(Deo)

*Pintura: Mural de Banksy

domingo, 26 de agosto de 2018

Sementes



Adoro sementes. O milagre do vir a ser. Uma metáfora perfeita de potenciais virtudes secretas. Ou esquecidas, adormecidas, quiçá. Em ideal estado de hibernação. Exigem tempo, zelo e esforço. Preparar o terreno, sujar-se de terra, sem receios. Sentir o tempo perfeito, adivinhar a estação. Debulhar-se em ansiedade e medo do "se virá". Das ervas daninhas alheias e próprias que podem estrangular e minguar as esperanças. Lançar raízes em busca do mais profundo. Esticar-se em broto e folhas no intangível. Brotar, crescer, florescer, frutificar. Mais: envolve sacrifício. Desapego. Do entender o momento certo da colheita, do fim do ciclo. Da retomada. Sangue verde nas mãos e aromas (des)conhecidos no ar. Tempero, alimento, bálsamo! Para o corpo-alma. Um milagre. Uma mensagem. Um encanto, no fundo. Bruxaria antiga sem palavras, que age no silêncio e nas entranhas. Um brotar-em-ser. Um crescer-em-si. Um florescer-em-mim. Um frutificar-sem-ver.

(Deo)

*Pintura: "The seed", de Pawel Jońca.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Verdes campos etéreos



Quando me perguntaram: “Por quê?”
Não soube dizer
Poderia me dizer do cansaço, da fugaz tentativa de não ser
Ou da fuga
Ou sei lá quantas razões escondidas em tantas asperezas da alma -
Apenas fui.
Não sei bem
Continuei.
Não soube bem.
Continuo.
E então soube, de estalo...
(Risos.
Meio que o estalar de dedos do Thanos)
Ou quem sabe só destino mesmo. Romancear e fantasiar é preciso.
Pedaço de tantos, procurando algo mais.
Sorte ou habilidade, sabedoria ou mero fingimento.
- Não gosto de escrever em enigmas, percebe?
É só o passar do dia. O peso das tarefas e a vontade de ter sido diferente.
Ou talvez tenha aprendido a lição. Aprendido o que deveria e caberia.
Todo homem. Todo homem.
Enfio meus dedos na Terra e me enraizo. Em flor, em talos e folhas.
Talvez a esperança volte
Como o verde nos campos...

(Deo)

*Pintura: "Eros & Psique", de Taigo Meireles

quinta-feira, 29 de março de 2018

PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ



Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis:
Arrastaram eles os blocos de pedra?

E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes?

Em que casas da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?

A grande Roma está cheia de arcos do triunfo:
Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?

A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para os seus habitantes?

Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam
gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar a tragou?

O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?

César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?

Filipe da Espanha chorou,
quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?

Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?

A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?

Tantas histórias.
Tantas questões.

(Bertolt Brecht)

*Foto: "Trabalhadores", de Divaldo Moreira/Comércio da Franca

quarta-feira, 28 de março de 2018

NÃO SINTO SUA FALTA




Não sinto tua falta.
Nem falta do teu cheiro
de perfume importado
que me exportou de mim.
Não sinto falta
do teu érre puxado,
nem do teu beijo
gosto-de-dente
que morde coração-envenenado.
Não sinto tua falta.
Nem falta do teu olhar barroco,
do teu gosto agressivo,
da dor que tu me provocas
feito extração de siso.
Não sinto tua falta.
NÃO SINTO.
Não lembro de você.
Nem da tua respiração ofegante,
nem do teu andar elegante,
nem da tua sorte disfarçada
de porta-que-encara-bunda-de-elefante.
Não sinto tua falta.
Sinto ânsia.
Distância.
Não sinto falta do teu deus-oriental,
do teu signo-preto,
do teu silêncio-grito
que me soa poema-lírico.
Sinto ânsia.
E a provoco.
E enfio meus dez-dedos
na garganta
pra ver se vomito teu ser
da minha alma.

(Lucas Veiga)

*Vídeo: Clipe da música Barquinho de Papel, de Anavitória

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Marshmallow e cacos de vidro





Não queria que soasse como carta
Ou como poema
É mais um daqueles clichês antagônicos e extremamente complicados de seguir
Mas que, justamente por isso, se tornam legais e, depois de muitos anos, um cult...
Queria mais manhãs de sol e neblina ao acordar. Mais pés descalços na grama. Menos correria de vai pra lá e vem pra cá. Queria teu abraço quentinho, morninho, implorando sossego e tranquilidade.
Queria a incerteza da volta (quando se está convencido de que haverá, inevitavelmente, uma volta)
Queria, mais do que isso, a sandice dos deuses de andar de mãos dadas com quem se quisesse ou tentasse ou achasse ou provasse ou aprouvesse
Sem temer o olhar do inimigo ou a língua amarga que teima e insiste em falar mesmo com tanta louça suja pra lavar por aí na pia
Deixa os montes, as pias, as más vontades...
“Bons olhos me vejam. Maus olhos cegos sejam. ” Já dizia minha vó.
Misto de benzedura, carinho... ou conselho mesmo.
Nada como um bom chá de camomila à tarde. E um belo calmante à noite (de sexo, literatura, cinema, prosa ou poesia)
Saudade que se guarda no nada. Que incomoda e se molda. À imagem, à perfeição.
Gatos, colinas, textões, caras, riso torto, expressões e a névoa do maldito cigarro a cobrir tudo.
Somebody to love. Mesmo que o love nem seja ou mereça tão love assim.
Música, trampolim.
É assim.
Ser quem se é, quem sabe? Ser quem será.
Exatamente. Irrepreensivelmente. Inexoravelmente.
E...
(7’5” corta pro FIM).

(Deo)

*Vídeo: Clipe da música "Somebody to love", Queen.